
Os peixes-boi Victor Maracá e Perpétua iniciam, neste sábado (7), uma jornada decisiva em busca da liberdade. Mantidos sob cuidados humanos após serem resgatados ainda filhotes, os dois animais deixarão o Centro de Triagem de Animais Silvestres do Ibama em Macapá (Cetas/AP) com destino ao Recinto Omar de Aclimatação, situado em Soure, na Ilha de Marajó (PA). O trajeto abrange cerca de 537 quilômetros e será realizado por vias terrestre e fluvial.
A chegada dos mamíferos aquáticos ao arquipélago paraense está prevista para a manhã de segunda-feira (9). No local, eles se juntarão à fêmea Adria para dar início à fase de readaptação ao ambiente natural. A reintrodução definitiva na natureza dependerá da evolução de critérios sanitários e comportamentais de cada animal, ainda sem data fixa estipulada.
A transferência mobiliza uma rede de 54 profissionais de oito instituições, sob a coordenação técnica do Instituto Bicho D’água: Conservação Socioambiental (IBD). A operação faz parte do Programa de Conservação de Peixes-boi no Estado do Pará, liderado pelo Ibama.

Histórico dos animais
Victor Maracá, de 13 anos, deu entrada no Cetas/AP em 2013, logo após o nascimento. Ele pesa 319 quilos, mede 2,51 metros e é um híbrido de segunda geração entre o peixe-boi-marinho e o peixe-boi-da-Amazônia. Esta é a sua segunda tentativa de aclimatação: em 2019, o animal chegou a ser levado para a Terra Indígena Uaçá, no Amapá, mas precisou retornar à capital amapaense no ano seguinte devido à interrupção das atividades causada pela pandemia de covid-19.
Perpétua, uma fêmea de peixe-boi-da-Amazônia com 6 anos, foi resgatada em 2020 com aproximadamente três meses de vida. Com 2,06 metros e 124 quilos, ela vinha sendo criada na Fundação Bioparque da Amazônia. Nesta quinta-feira (5), a fêmea será transferida para o Cetas para que possa embarcar junto com Victor.
“Levar os dois para o Recinto Omar é dar a eles uma segunda chance de retorno à natureza, local de onde nunca deveriam ter saído. A equipe planejou e simulou com cuidado cada etapa da viagem para que seja a mais tranquila e segura possível”, destaca Renata Emin, coordenadora técnica da operação pelo Instituto Bicho D’água.
Logística e cuidados durante o percurso
A complexa logística de transporte terá início na manhã de sábado com o esvaziamento das piscinas no Cetas. Uma equipe de 20 pessoas erguerá cada animal manualmente em macas apropriadas até vans climatizadas, onde repousarão sobre colchões úmidos durante o trajeto terrestre até o porto da Marinha, em Santana (AP).
No porto, os animais serão transferidos para piscinas de fibra instaladas na embarcação Rio do Norte, dando início a uma travessia fluvial com duração estimada em 36 horas. Durante todo o percurso, 18 especialistas em manejo de fauna aquática se revezarão em turnos para monitorar os sinais vitais e o comportamento dos espécimes.
Ao desembarcarem em Soure, os animais farão um trecho final de 1 km de van até o Recinto Omar.
Integração institucional e salvaguardas ambientais
Além do Ibama e do Instituto Bicho D’água, a operação conta com o apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA/ICMBio), Fundação Bioparque da Amazônia, Iepa, Ifap, Cemam e Associação Aquasis. A Marinha do Brasil disponibilizou a infraestrutura portuária, e a Petrobras presta apoio à ação como parte das condicionantes de licenciamento ambiental federal do Bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas.
A superintendente do Ibama no Amapá, Débora Thomáz, ressaltou o papel da ação dentro do cenário regional:
“Esta ação estratégica ganha ainda mais relevância diante do atual cenário de debates e vistorias técnicas na Margem Equatorial. Em um momento onde o desenvolvimento e a infraestrutura estão em pauta, o fortalecimento das salvaguardas ambientais e a proteção ativa da nossa biodiversidade precisam caminhar lado a lado com a mesma prioridade.”
Recepção comunitária na Ilha de Marajó
Na chegada a Soure, Victor e Perpétua passarão por 72 horas de monitoramento intensivo na estrutura adaptada em uma antiga fábrica de gelo às margens do rio Paracauary. O Recinto Omar, que completou um ano de funcionamento em 3 de novembro, tem capacidade para até oito indivíduos.
A população local acompanhará a movimentação das vans em áreas públicas, e estudantes das escolas do município preparam cartazes de recepção. Após a acomodação dos animais, o IBD e o ICMBio promoverão uma sessão de educação ambiental aberta à comunidade na sede do ICMBio em Soure. O acesso às áreas de manejo direto dos peixes-boi permanecerá restrito às equipes técnicas.






